O eu na Internet
Postar alguma coisa nas redes sociais está cada vez mais custoso
A Internet tardia se transformou em um ambiente hostil. Postar alguma coisa nas redes sociais está cada vez mais custoso porque significa fazer um registro contínuo e atualizado sobre a sua vida para uma plateia. O acordo invisível que assinamos ao usar essas plataformas prevê que atualizemos o tempo todo como está nossa personalidade, nosso rosto, nossos interesses e a rotina para qualquer um apreciar (ou não). Mesmo que a gente não queira se expor, acaba sendo levado pelo efeito manada, afinal, esse é o novo comportamento humano.
O Instagram massificou tanto que cada um de nós a essa altura já tem uma plateia completamente diversa formada pelos colegas de infância, passando pelos conhecidos da vida adulta, e chegando às pessoas que conhecemos brevemente em alguma ocasião, sem falar nos completos desconhecidos. Ter um perfil público inclui ainda uma plateia anônima que pode ser formada por potenciais futuros chefes, antigos e novos parceiros sexuais, as atuais dos seus ex, os parentes que odeiam suas visões políticas e qualquer um que se interesse pela sua vida, seja qual for o motivo.
Buscar uma dose barata de dopamina esperando comentários em uma foto bonita, sai portanto muito caro e reforça a falsa sensação de pertencer a uma comunidade e ser querido, quando na verdade os outros só estão “consumindo” a sua vida.
Além disso, o uso das redes sociais esvazia qualquer ação política de indivíduos ou grupos, pois ao postar imagens de um protesto ou alguma charge ridicularizando um político, sentimos que fizemos a nossa parte, quando na verdade nós só apertamos um botão e jogamos mais alguns pixels na via láctea.
“A internet pode parecer uma linha direta surpreendente com a realidade - clique se voce quiser alguma coisa e aquilo vai aparecer na porta da sua casa duas horas depois; uma série de tweets viraliza e logo há uma paralisação nacional nas escolas - mas ela também pode tirar nossa energia da ação propriamente dita, deixando a esfera do mundo real para as pessoas que já a controlam, nos mantendo ocupados com sucessivas tentativas de explicar nossa vida da melhor forma possivel”, escreveu a jornalista da New Yorker Jia Tolentino no livro “Falso Espelho”.
No livro The Attention Merchants, Tim Wu escreveu que o controle remoto fez com que a mudança de canais se tornasse “praticamente não-volitiva”, levando os espectadores a um estado mental parecido com o de um recém-nascido ou de um réptil. Na internet, tal dinâmica foi automatizada e espalhada na forma de feeds das redes sociais, que ele chama de “mangueiras viciantes de informação que nós miramos na direção de nosso cérebro na maior parte do dia”.
“Como muitos de nós, tornei-me bastante consciente de como meu cérebro se degrada quando eu o imobilizo a fim de que ele receba todo o fluxo que desce pela corredeira da internet, esses canais ilimitados, todos constantemente carregando novas informações: nascimentos, mortes, ostentação, bombardeios, piadas, anúncios de emprego, publicidade, avisos, reclamações, confissões e desastres políticos, que atacam nossos neurônios desgastados com enormes ondas de informação que nos levam a nocaute e são instantaneamente substituídas. É uma maneira horrível de se viver, que está nos desgastando rapidamente. (...) A internet aumentou drasticamente nossa capacidade de saber das coisas, enquanto nossa capacidade de mudar as coisas continuava a mesma, ou possivelmente diminuía bem diante de nós”. (Jia Tolentino em “Falso Espelho)”.
Novamente estamos vendo a extrema direita brasileira, que quase deu um golpe de Estado, voltar ao poder pelo voto popular. Não aprendemos nada com os quatro anos que valeram mais que uma década perdida. No meu feed, não vejo nenhum post sobre política. A polarização gerada pelas redes (pois o algoritmo te “joga” em um grupo, mesmo que você não seja 100% uma coisa ou outra), acabou tento o efeito de fazer as pessoas evitarem o conflito, já que não foi nada agradável brigar com os parentes e amigos no passado. Preferimos voltar a nossa atenção para o corpo perfeito, para as compras que sinalizam status, para as receitinhas fit e a disseminação de uma falsa felicidade constante.
Ao mesmo tempo que acho que postar não resolve os problemas, também não consigo ver como uma reação popular a algo ruim possa ser organizada ignorando a Internet. Sinto que não podemos nos recusar a participar da Internet simplesmente por achar que só tem besteira, ou que nela o mal é propagado. O mundo se organiza dentro da Internet, e muitas vezes somos levados a nos adequar ao espaço que nos é dado.
“Para criar uma tecnologia humana, precisamos pensar profundamente sobre a natureza humana, e isso significa mais do que apenas falar sobre privacidade. Este é um momento espiritual profundo. Precisamos entender nossos pontos fortes naturais - nossa capacidade de autoconsciência e pensamento crítico, para debate e reflexão fundamentados - bem como nossas fraquezas e vulnerabilidades, e as partes de nós mesmos sobre as quais perdemos o controle”, afirmou em uma entrevista o especialista em ética de tecnologia Tristan Harris, criador do Center for Humane Technology.
“A distração é uma questão de vida ou morte”
Ainda cabe uma última problemática de postar que é alimentarmos voluntariamente os bancos de dados das big techs sobre a nossa humanidade pessoal. O que gostamos, o que não gostamos. O que queremos comprar. O que salvamos. Nossos desejos que não admitimos nem para a gente. Liberamos o acesso à nossa mente para os robôs nos manipularem. Ou como disse a a professora Zeynep Tufekci em seu TED Talk, “estamos criando uma distopia apenas para fazer as pessoas clicarem em anúncios”.
“Não somos mais almas misteriosas; nós somos animais hackeáveis. Para hackear seres humanos, você precisa de muito conhecimento biológico, muito poder de computação e, principalmente, de muitos dados. Se você tiver dados suficientes sobre mim e bastante capacidade de computação e conhecimento biológico, você pode hackear meu corpo, meu cérebro, minha vida. Você pode chegar a um ponto em que me conhece melhor do que eu mesmo”, disse o filósofo Yuval Harari, autor do livro Sapiens, em um debate no Fórum Econômico de Davos.
Enquanto estamos distraindo nossa mente, estamos na verdade sendo tentados a comprar produtos o tempo todo. Só que isso nos tira o poder de sermos animais capazes de agir socialmente.
“Um corpo social que não consegue se concentrar ou se comunicar é como uma pessoa que não consegue agir (....) A distração é uma questão de vida ou morte”, escreveu Jenny Odell no livro “How to do Nothing”.
Como tomar nosso poder e nossa mente de volta?
A escritora Jia Tolentino se questiona se a gente conseguiria retomar o status do ser humano antes de termos sido capturados pelo mundo digital.
“Não temos nada além de nossas pequenas tentativas de reter nossa humanidade. Devemos agir segundo um modelo de individualidade real, que aceita a culpabilidade, a inconsistência, e a insignificância. Teríamos de pensar com muito cuidado sobre o que estamos recebendo da internet e o quanto estamos dando em troca. Teríamos de nos importar menos com nossas identidades, ser profundamente céticos em relação às nossas opiniões insuportáveis, prestar atenção nos momentos em que a oposição nos beneficia, ter vergonha quando não podemos expressar solidariedade sem nos colocarmos em primeiro lugar”.
Do meu lado, o que eu consigo fazer por hora é não postar (muito). Tentar retomar minha atenção fugindo de scrollar a tela o tempo todo. Participar o mínimo possível, mas sei que ainda estou longe do ideal. Fico então com o que o filósofo francês Gilles Deleuze escreveu… em 1985.
“Estamos em um enigma de conversas inúteis, quantidades insanas de palavras e imagens. A estupidez nunca é cega ou muda. Portanto, não é um problema fazer as pessoas se expressarem, mas sim fornecer lacunas de solidão e silêncio nas quais elas possam eventualmente encontrar algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se expressarem, mas sim as forçam a se expressar. Que alívio é não ter nada a dizer, o direito de não dizer nada, porque só então existe a chance de enquadrar o raro, e ainda, mais raro, de encontrar o que vale a pena ser dito”.
Algumas coisas que vi por aí:
Abas Infinitas no Instagram
Ironicamente trago um projeto online que criei. É uma forma que encontrei de usar o Instagram positivamente e espalhar frases sobre criatividade e desbloqueio. Reaproveitei o Instagram da Newsletter que estava abandonado há algum tempo e estou postando lá. Se você se interessa pelo assunto, segue aqui!
Beef (Treta) - Netflix
O que acontece quando duas pessoas caóticas se encontram? A série Beef (Treta) explora como um simples desentendimento no trânsito gera o caos. Amy Lau (Ali Wong) e Danny Cho (Steven Yeun) são os personagens principais: ela, empresária, com uma vida quase perfeita, ele como um empreiteiro perdedor, com tendências suicidas.
O desenrolar frenético dos acontecimentos nos envolve na loucura dos dois, que leva a uma obsessão pela destruição do outro, e que acaba afetando todos à sua volta. Não dá para revelar mais muita coisa, pois poderia estragar a experiência de quem não viu, mas vale a pena embarcar nesse tobogã de emoções, principalmente porque o roteiro traz personagens complexos e imperfeitos, que vão se revelando mais e mais. A dupla de protagonistas venceu o Emmy por esse trabalho, e a Ali Wong foi a primeira atriz de ascendência asiática a ganhar o Globo de Ouro de melhor atriz de série. A primeira temporada de Beef é de 2023, mas só descobri agora, quando várias pessoas começaram a postar sobre a nova temporada, que eu logo corri para assistir. Spoiler: odiei.
Ali Wong também é uma comediante muito engraçada, e uma coisa levou à outra. Seu stand-up “Single Lady” (2024) está disponível na Netflix.
Pluribus - Apple TV
Uma série um pouco antiga, mas que só fui ver recentemente e gostei muito! A nova série do Vince Gilligan, criador de Breaking Bad e Better Call Saul, a quem eu daria um cheque em branco por causa desse histórico. A sinopse oficial economiza nos detalhes: “A pessoa mais miserável da Terra precisa salvar o mundo da felicidade”. Carol é uma escritora meio infeliz, mas apegada ao seu estado mental irônico e crítico. Ela é uma das poucas pessoas no mundo que consegue manter sua mente de uma espécie de “lavagem cerebral” feita por ETs que chegam à Terra. Do dia para a noite, todas as pessoas passam a ter o mesmo estado mental, feliz, e otimista, mas Carol é resistência. Ela fica praticamente sozinha no mundo, e uma das partes de que mais gostei foi quando ela foi no museu e pegou um quadro da Georgia O’Keefe para colocar na sala. Mas nem tudo é curtição, Carol pega para si a função de salvar a humanidade sozinha. Vale a pena pela atuação da Rhea Seehorn que ganhou o Globo de Ouro por esse papel.
Diana Nyad - Wiser than me
A nadadora de resistência Diana Nyad deu uma entrevista em um dos meus podcasts favoritos, o Wiser than Me, da Julia Louis-Dreyfus. Nyad tem 76 anos e compartilha insights sobre sua histórica travessia a nado de Cuba à Flórida em 2014 (que até rendeu um filme na Netflix) e a importância da resiliência na terceira idade. A nadadora enfatiza que envelhecer é um período de liberdade, permitindo a busca por paixões e o retorno ao espírito aventureiro da juventude. Conhecida por nadar 167 quilômetros sem gaiola de proteção contra tubarões aos 64 anos, ela discute sua dedicação de uma vida inteira para alcançar objetivos monumentais. O que mais me chocou foi um detalhe sobre sua rotina de treinos: ela faz 1000 burpees, duas vezes por semana.
DTF St Louis
Eu vi um monte de gente postando sobre essa série e corri para ver na HBO. Mais do que uma investigação de um assassinato, a história se desenrola mostrando as várias faces que um ser humano pode ter. Ninguém é totalmente bom ou ruim, e tudo o que parece óbvio, nem sempre é. Os atores são construídos com traços interessantes de personalidade, como um dos protagonistas que é intérprete de sinais e que tenta fazer um bom trabalho traduzindo um show para jovens. Nessa entrevista, ele diz que se inspirou nessa intérprete atuando em um show.
E finalizo com um dos meus comediantes favoritos, Josh Thomas:
“Estamos tão acostumados a nos comparar com as pessoas mais legais e mais bonitas do mundo que começamos a achar que elas são o padrão. Você já andou de ônibus? Esse é o padrão.”
Até a próxima!




